Formas do Invisível - Individual de Catarina Dias
CURADORIA
Marina Câmara
INÍCIO
22 de maio de 2026
FIM
18 de julho de 2026

Entre as primeiras experimentações em artes visuais de Catarina Dias, e Formas do invisível, sua segunda exposição individual, transcorreram-se cerca de sete anos. Os trabalhos apresentados nesta exposição foram elaborados ao longo da sua residência artística no Programa 2025 de Concessão de Ateliê do Remanso – Instituto Cultural. Durante esse tempo, Catarina elaborou poeticamente suas vivências, criando um conjunto de obras que são armas simbólicas e literais, das quais ela vem se munindo para se afirmar enquanto artista visual ao longo desse tempo, esses sete anos.
A geração que a antecede, sua avó, avô, tias e tios maternos, vive em Canudos Velho, no Estado da Bahia, cidade vizinha de Canudos, que foi palco de um dos crimes em massa mais brutais já praticados na história do Brasil. Em 2014, aos 17 anos de idade, Catarina percorreu os mais de 3 mil quilômetros, em viagem com seu pai e sua mãe, desde Guaíba, para conhecer seus parentes que ela visto apenas aos dois anos de idade, e para conhecer também o lugar onde cresceu sua mãe, a própria cidade de Canudos.
Daquela ocasião, temos os registros “Falta”. Para expor essas fotografias hoje, 12 anos depois de tê-las feito, Catarina, no entanto, preenche as ausências de seus familiares que indica no vazio das imagens, com a renda, essa trama de fios, que ela usa para completar a parte da sua própria história que a ela mesma segue invisível. É um movimento engenhoso que a permite converter tanto a falta dos parentes, quanto de um lugar físico – a raiz de seu pertencimento – em matéria prima para a sua poética.
Consciente de que a sua própria realidade é fruto de questões sócio-políticas nacionais, ela me disse, em conversa:
Penso [nas] famílias brasileiras que viveram seus desterros e acabam se mudando para várias partes do Brasil. Separadas por questões financeiras, sem a possibilidade de uma família funcional, por conta da busca por empregos e novas oportunidades [são] questões muito características de famílias brasileiras pobres que acabam vivendo um “êxodo rural” obrigatório.
Um dos métodos que ela adotou para tratar sobre essas questões foi trazer para dentro da exposição seu núcleo familiar mais próximo. Sua mãe tem como trabalho artístico-manual a tecitura de redes de pesca, técnica que aprendeu trabalhando na pesca com seus pais que, por um bom tempo, foram pescadores. É de sua mãe a rede que vemos na instalação “Tapar buracos”. Já as facas, presentes em mais de uma obra, são uma herança paterna, cuja atividade manual é produzir facas artesanais. As facas também foram, no entanto, os instrumentos mais usados pelos conselheiristas, como se entrevê na foto “Museu de canudos”, em que a artista registrou uma visada do Museu Casa de Vó Izabel, que fica no Parque Estadual de Canudos, onde estão preservados os artefatos daquela Guerra.
Enquanto sua estreia nas artes visuais foi sobretudo com performances, a partir de sua residência no Remanso Catarina passou a se dedicar majoritariamente à cerâmica, técnica com a qual já vinha trabalhando desde 2020. Aos poucos ela vai materializando, assim, o impalpável que percebe - mesmo sem ver, nem ter convivido - do seu passado, ao passo que forja, para si, também uma escultora.
Em trabalhos anteriores, como os santinhos autorais “Rajada de fé”, “Fé nos teus”, ambos de 2023, Catarina já vinha pesquisando os símbolos religiosos. Com “Armas de Jorge” 2026, um dos trabalhos tridimensionais aqui apresentados, a artista manipula a herança religiosa que nos constitui, apresentando formas em negativo e em positivo da figura do Santo, em peças feitas de cerâmica vitrificada. Desse mesmo material ela cria vasos, ora com aplicação da renda, ora atravessados pelas facas e por pregos.
Rede de pesca e renda, ora atravessados por pregos, ora tecendo as muitas faltas de seu passado; entalhes feitos por esses objetos pontiagudos – tanto os pregos, quanto as facas – são os modos de escavar e esculpir, pela pesquisa do seu passado, seu ser artista de hoje e do futuro.
Marina Câmara
PRODUÇÃO Luiza Veiga
ARTISTAS
Catarina Dias